quinta-feira, dezembro 28, 2006

Tesouros Da Juventude - Vol. V

ESQUIZOFONIA - R. Murray Schafer

O prefixo grego schizo significa cortar, separar. E phone é a palavra grega para voz. Esquizofonia refere-se ao rompimento entre um som original e sua transmissão ou reprodução eletroacústica. É mais um desenvolvimento do século XX.

No princípio, todos os sons eram originais. Eles só ocorriam em determinado tempo e lugar. Os sons, então, estavam indissoluvelmente ligados aos mecanismos que os produziam. A voz humana somente chegava tão longe quanto fosse possível gritar. Cada som era individual, único. Os sons têm semelhanças entre si, a exemplo dos fonemas que se repetem numa palavra, mas não são idênticos. Testes mostraram que é fisicamente impossível para o ser mais racional e calculista da natureza reproduzir duas vezes exatamente da mesma maneira um só fonema de seu próprio nome.

Desde a invenção do equipamento eletroacústico para a transmissão e estocagem do som, qualquer um deles, por minúsculo que seja, pode ser movimentado e transportado através do mundo ou estocado em fita ou disco para as gerações futuras. Separamos o som do produtor de som. Os sons saíram de suas es naturais e ganharam existência amplificada e independente. O som vocal, por exemplo, já não está ligado a um buraco na cabeça, mas está livre para sair de qualquer lugar na paisagem. No mesmo instante, ele pode sair de milhões de buracos em milhões de lugares públicos e privados, em todo o mundo, ou pode ser estocado para ser reproduzido em data posterior, talvez centenas de anos depois de ter sido originalmente produzido. Uma coleção de discos e fitas pode conter informações de culturas e períodos históricos completamente diversos, que pareceriam, a qualquer pessoa de outro século que não o nosso, uma justaposição surrealista e sem sentido.

O desejo de deslocar os sons no tempo e no espaço tem sido observado de algum tempo para cá na história da música ocidental, de modo que os recentes desenvolvimentos tecnológicos foram simples consequência de aspirações que já haviam sido efetivamente imaginadas. O secreto quomodo omnis generis instrumentorum Musica in remotissima spacia propagari possuit (pela qual todas as formas de música instrumental podem ser transmitidas a lugares remotos) foi uma preocupação do músico e inventor Athanasius Kircher, que discutiu pormenorizadamente o assunto em sua Phonurgia Nova, de 1673. Na esfera prática, a introdução da dinâmica, os efeitos do eco, a separação de recursos, a separação entre solista e conjunto e a incorporação de instrumentos com qualidades referenciais específicas (trompa, bigorna, sinos etc.) foram tentativas de criar espaços virtuais que fossem maiores ou diferentes das salas acústicas naturais, do mesmo modo que a pesquisa da música folclórica exótica e a quebra do tempo para a frente e para trás para encontrar novos ou antigos recursos musicais renovados representam um desejo de transcender o tempo presente.

Quando, depois da Segunda Guerra Mundial, o gravador fez incisões em um possível material gravado, podia-se cortar qualquer objeto sonoro e inserí-lo em qualquer novo contexto desejado. Mais recentemente, o sistema de som quadrifônico tornou possível uma paisagem sonora de eventos sonoros estacionários ou em movimentos de 360 graus, o que permite simular no tempo e no espaço qualquer som do ambiente, como também permite a completa transposição do espaço acústico. Qualquer ambiente sonoro pode agora transformar-se em qualquer outro ambiente.

Sabemos que a expansão territorial dos sons pós-industriais complementaram as ambições imperialistas das nações do Ocidente. O alto-falante também foi inventado por um imperialista, pois respondeu ao desejo de dominar outras pessoas com o próprio som. Do mesmo modo que o grito dissemina angústia, o alto-falante comunica ansiedade. "Não teríamos conquistado a Alemanha sem...o alto-falante", escreveu Hitler em 1938. (1)

Cunhei o termo esquizofonia em A nova paisagem sonora (2) pretendendo que ele fosse uma palavra nervosa. Relacionando-o com a esquizofrenia, quis conferir-lhe o mesmo sentido de aberração e drama. Na verdade, a destruição dos dispositivos hi-fi não somente contribui generosamente para o problema do lo-fi como cria uma paisagem sonora sintética na qual os sons naturais estão se tornando cada vez mais não-naturais, enquanto seus substitutos feitos a máquina são os responsáveis pelos sinais operativos que dirigem a vida moderna.

1. Ohne Kraftwagen, ohne Flugzeug und ohne Lautsprecher hätten wir Deutschland icht erobert, Adolf Hitler, Manual of the German Radio, 1938-1939.

2. Publicado como um pequeno livro sobre audição e educação musical, A nova paisagem sonora foi, mais tarde, incorporada ao livro O ouvido pensante (São Paulo: Editora UNESP, 1991/1996), do mesmo autor, como um de seus capítulos. (N.T.)

Este texto é parte do capítulo A Revolução Elétrica do livro A Afinação do Mundo (São Paulo: Editora Unesp, 1997, pp. 133-135), do músico e estudioso R. Murray Schafer.

Air Guitar:
System Manipulation
Discus - Tot Licht

Fonte: Rizoma.net

terça-feira, dezembro 26, 2006

Psicogeografia.... (Mantracks!)


Meu rosto as vezes é acromatoso
como minha cara acanhada
sem saber aonde esconder
a expressão do olhar a intimidar-se,
outras vezes vermelha como quem
não consegue reter
o "emergere" histamínico,
o excesso de adrenalina
e a ironia das sombrancelhas
desmascarando meus sentimentos
algumas vezes me chamo algara,
outras illecebrus,
me doi ver o sangue derramado
nas revoluções que instauram estados
que preconizam que há democracia,
fome, salario mínimo, cestas básicas
e cheque cidadão....
atestando que não há trabalho para todos
e que o show da produção precisa
dos centavos que já não tenho,
e que não consigo colecionar
dentro de um porco de barro,
vendido pelas esquinas da Buenos Aires
por desesperados como eu....
em busca do hortifruti semanal
e do açougue diário,
apenas 100 gramas de "solens green"
embrulhada no papel de carne seca.....

Meus olhos às vezes parecem foscos
como os de quem não pode
mais comprar soro e insiste em
usar lentes de contato....
living'n the cancer industry.....
aprendo a me arrepender
de ter aprendido o que aprendi,
das palavras de meu pai,
do sabor do leite
das tetas de minha mãe e
de minhas dúvidas adolescentes
desesperadas tentando entender
a metabólica imaginística
do agraúdar-se.
hoje, me parece tudo tão igual....
como quando o niilismo chegou
anunciando a maturidade,
a morte hormonal,
e a oxidação sanguinêa.
feito chapa de casco de navio
exaurida pela maresia e, pela craca.
safa por conhecer a temperatura
de mares habitados por icebergs
propocionalmente opostos aos seus picos.
estrelas num show educacional ao amanhecer
logo após a noite fugidia,
escapar do sol que sorri luz
aos famintos
e, escorre no filtro solar
da pré envelhecida, pele anserina
pelas orgias debaixo do sol,
em um estado que
se instalará aos mínimos
pontos cartográficos no solo,
desta galáxia canibal.

II

Nos solstícios
estacionários entre,
os invernos e os verões
avassalam as solidões!
confessas na voz;
d'uma aneja primal,
esbravejando enlevada:
- Deus é fiel! da manhã à noite."
resta crer nisso?,
na certeza da decapitação?
enquanto um poeta sonha,
meus olhos giram nervosos
em torno das suas
órbitas anomalísticas.


Air Guitar:
The Whores Hustler And The Hustler Whores
PJ Harvey - Stories From The City, Stories From The Sea

Porra! tá o maior kalor!

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Ninguém

Ninguém
Zé Felipe & Renato Pittas

Karalho!

Eu não sou ninguém
e você é quem ?
Eu sei que eu
posso ser qualquer coisa
mas, eu não sou ninguém,
quem me deu essa voz
p'ra afirmar isso?

Eu não sou ninguèm
e você é quem, Kara?!

Não há corpo
no meio desta voz,
só farsa;
- Falsete!

não fode kara!

Eu não sou ninguèm
e você é quem?!

Saia de seu carro
venha discutir
neo-capitalismo,
socialismo e os
"taos" comunistas, que
devem ser dos jovens...

Não Fode!
Você é Gay,
homophobiKú?
Você é quem?


Eu não sou ninguém e,
você é quem!
Você é quem?
hahahaha! eu
não sou ninguém!

Karalho!

Péra aí, kara!

Nessa história toda
quem é quem?
se, o ninguém sou eu.
Você tem que ser
alguma coisa;
- Kara!
Quem é você?
se você não é eu.
Você é quem Kara?
se eu sou ninguém
Você pelo menos;
- é quem Kara?!!!!!

Eu não sou ninguèm. (?)
E, Tu é quem?!!

Air Guitar:
Ninguém
Zé Felipe & Lêdo Engano
O Rosto no Espelho Pertence a quem?


II


Arcanjo:

Nú! vens,
em música
e luz solar!

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Tesouros Da Juventude - Vol. IV




Maionese - Zé Urbano

O mundo é uma pequena caixa
dentro tem pequenas pedras,
ilhas num mar de maionese.

Maionese...

A gaivota sai voando e eu a vou olhando,
voa contra o sol e assim me ardem os olhos.
Momentaneamente cego e desnorteado vago;
repentinamente pombos me bombardeiam.

Meu consolo é um pão com maionese.

Pão...

O mundo é um mar de maionese
contido numa pequena caixa;
dentro tem pequenas ilhas,
pequenas pedras num rochedo.

O mundo é um rochedo...

E como é bão
macarrão com feijão
cozido numa panela de pressão
da marca Rochedo.

Macarrão com feijão...

Air Guitar:
Do You Want New Wave Or Do You Want The Truth?
Minutemen - Double Nickels On The Dime

Pic: Zé Felipe.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

2:1


Tema para uma doença imaginária!
....Orthotanasia extended play!


Atravessando mares,
um possível naúfrago ansiando por sobreviver
ao ambiente insalubre e a falta de sushis.

(please, stay away; - drink another sakê!)

cruzando dias através desta doença
que me consome aos poucos e que sequer
ainda me deram um diagnóstico.

as dores me alvitam
os analgésicos já não fazem mais efeito
os doutores perdem seus rostos e,
meus braços já não tem mais espaço
para os furos das agulhas de soro.

minha traqueia quase separa
meu pescoço da cabeça que,
ja não sustenta o colar de pérolas
que enfeitaram as bodas de minha felicidade...
tô ansiando pelo ar que já não inspiro
pelas ressecadas e desérticas narinas
que não traduzem mais nada ao plexo solar
já não adiantam yogas.

Here!
there no more pelvis
no more elvis!,
no more hip shakes!

o espetáculo da medicina me mantem
preso a estes cabos e plugs
enquanto essas doenças me consomem
e, eles sequer me garantem,
novas idas ao super mercado;
um verme devorando a si mesmo.

ninguém, antropofagia,
redundância pulsional,
conflito catártico entre eros e tanathos,
guerras psicológicas,
ausência de possibilidades curativas.

a morte bate em minha porta e
me consome a cada minuto,
misturando ao metabolismo químicas
que não me traduzem ou
sequer causam prazer,
ao que ainda resta.

neuros sensores que não captam o que é ser
depressão de uma morte
que não chega a ser negra
mais que fazem crer na peste
dizimando tudo em volta,
por onde passo, no que toco....

o corpo na decadência estrutural,
o verbo na pior fonética que ouso falar.
se me ver por ai, não queira
saber porque estou desistindo
não queira crer que há
possibilidade de sobrevida
na falência que sequer decretei.

...i try to pray!

me deixei levar na crença dos heróis
que me ofertam destemores,
durante a sessão da tarde,
num dia de vagabundagem
e, depressão avassaladora.

....do outro lado.

vejo o sol brilhar e a lua a me encantar!
mas, já não creio, pois;
sei de meninas violentadas por imbecis
e imbecis que maltratam crianças,
assasinando friamente a vida efervecente....

quem nega o afeto por violências;
assina infâncias e etéres essênciais,
tolhe o desenvolvimento emocional.
é pior que estar aqui, doente. podre!
tomado por bactérias vorazes e;
pesares, imaginando...
O ainda patético!

II

Doce....(anabolic remix!)

quem sabe a boca
não se preencha de saliva
para saciar a sede do outro.

before i die...
i will kiss the world!

- good bye!

Air Guitar:
Ain't No Grave Can Hold MY Body Down
Diámanda Galas - La Serpenta Canta


Do you realy belive there's no had
a free mind in the world?