domingo, dezembro 25, 2005

Quimera & The Fuck'ng Bell's Dancers...(From Here To There Eventually!)


Castanha de cajú tostada, nozes à triturar, pinhão,
pinholes, nozes trituradas, floco de avelã
perdido no meio do crème brulè, o jogo em que cada glutão, quer ser o campeão....o presente que todos querem.

Empadinhas de camarão, bolinho de bacalhau, maçãs,
bananas carameladas, figos em calda,
vôngoles e coquiles de bacalhau...á St. Jaques e

folheados de ameixa com bacon,
calcinha de nylon,
club social, petiscos de queijo feta
com azeite e zatar,
tenderes com pessêgos em calda,
cravos e crosta de mel,
pernil à brasileira e,
peru à california, vinho tinto suave,
alguma azia,
guaraná convenção....água de filtro na garrafa

de água mineral com gás.

Pinheiros decorados, lâmpadas piscando estrelas
na folhagem, mesa decorada com porta guardanapos,
porta copos, porta pratos e porta talheres, portas abertas
aos estes compenetrados, solenes, descolados, bebados
insatisfeitos, mau humorados, padecendo de mau hálito,
sofrendo de gases e deslocamento das costelas,
loucos de sede, secos por folia....Todos falando alto e ao mesmo tempo!

Suburbanos misturados com quem nunca veio por aqui,
e que só usam havaianas para andar em casa....
mesmo assim só às compradas na frança, pagas em euros.
bolo de nozes, amarula, golden lake, farofa, café e trufas....
inconformados com a familia,
invejosos à sua imagem projetados,
reconciliadores de última hora e,
um montão de "deixa disso"....cubanos em chama!

festa a toda hora com direito a um barraco qualquer,
bate boca, à boca miúda corre o folklore....
casadinhos, olhos de sogra, beijinhos de coco,
sorvete napolitano, bolinhos de aipim,
mini quiches de alho poró e alguns engovs.....maré alcalina.

axé, pagode, country, gospel, piadas sujas, indelicadezas dos garçons, dor de cabeça, piscina, protetor solar, água de coco, corpos, narcisos, frieiras, micoses,
óculos escuros, olhares sombrios e de soslaio para a bunda das amigas....gargalhadas, abraços, sorrisos e...

.....poesia desnecessária!

Amanheceu!

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Every man for himself. (A yellow wolf barking to the moom).


Imagens exibidas como feridas expostas num ambulatório suburbano, em dia de celebração cristã.....bocas seladas pelo lenço de papel comprado as pressas na farmácia da esquina...logo ele; - Do sorrisos das damas: o predileto!...olha que cara de sorte!....seu relógio, não era imitação paraguaia e todos viam-no com legitimo, montado no isolamento do inverno suíço....e nós aqui, fantasiando ursos brancos na terra do bacalhau...santa Klaus!!!!...

O que nos resta a tentar compreender senão, que; só não é escorregadio, como arriscado dançar sobre o gelo fino?...amanhã de manhã, haverá sol e o frio se ergurá aos céus como vapor, a evaporar evanescências emocionais...outro dia outra história a supreender....outras bocas a se calarem ao verbo.....de novo na margem, relembrando histórias, certificando-nos, que por mais que tentemos, elas nunca modifacam-se....nesta pele, o sol dorou a manhã e, a noite ardeu, enquanto; i twist'd in my sweat!.....pedindo que estivesse morto, engavetado numa daquelas gavetas frigoríficas do necrotério local....lost in a legall medical institute....illegal in a gaveta...só não escrevo pior porq vou aprendendo com os mestres, o meu ofício de aprendiz!.....à largar, a pele por esta terra, ou outra, e parir o veneno de minha natureza....rastreando gnomos, encantado por fadas, na fantasia musical celta.....com celteza!...

Perdido no meio do povo da noite, vamos caçando o dia, acompanhando o canto dos rios que gentilmente se misturam aos mares, diante dos olhos que pertubam as águas com sua visão sobre as perfídias dos desencantos amorosos..vitimas do passado...com cicatrizes nos sentimentos; denominado: - mentira!.....

Outros olhos sorrateiros encarando de frente os demonios das dilacerações, desejadas, calculadas para se traduzirem como misérias....here the Mr. Pain e seu auxiliar, anestesista, Doc. FeelGood...assim a manhã nascerá feliz....e hoje, passará como, desengano corriqueiro à nossa existência.

Bocas das quais nunca saborearemos o hálito, passam por nós, mastigando chicletes para esconderem a natureza de seus hummores...gente...só genetica do sonho, mapeamento cognitivo e a eterna incerteza do pai....a gerar o questionamento acadêmico. A ética reformulando-se como deveria reformular-se ao saber da evolução do questionamento sobre si.....só olhos tentando enxergar no escuro o que a luz, nega incendiar...a magia da musica que ressoa pela pele...enquanto olháva-mos o homem pisar na lua...ja faz tanto tempo, que viagens espaciais já não causam mais admiração.....a menos que os foguetes explodam-se....i can see tomorrow, everywhere in a pademonium...diga algo que nos convença e seremos intensos na experiência!!!!!!...aonde estão os escolhidos, senão, apenas, em nossas identificações e o rubescer da face diante do, apenas, elogio. ....histamina'desnortearamelanina?anfetamina'morosa? ....turn us on!!!!

Posso ser anjo ou maledicência em qualquer lábio, ou então: só, o estranho que espera desvendar-se, traduzindo a natureza já reconhecida das kamaradagens absolutas...só o seco da boca, desejando o gargalo do copo: ansiedade pelo gosto de Deus!

Ask me a nigthwalker :
- There's no more tenderness in your finger prints?
I told you:
- This is not a Christmas song!
airguitar: Pandemonium - Killing Joke
- meet'ng devils face to face!

terça-feira, dezembro 20, 2005

Hairstyles'n'atitudes..(justkiding!!!junk mix#33....{PAIN IN ANY LANGUAGE!}

UM LUGAR QUE GOSTARIA DE TER COMO QUINTAL.
(Foto recebida por e-mail)


A tensão escorre pela pele feito a concentração dos jogadores justificando o vicio como um fogo que escorre dos céus de brigadeiro, e, enganam os radares, pregam peças nos controladores de voo...we realy had a blackout...loose the sense, feito chuva magnética descarregada pelo sol, enquanto enfrentamos a fila dos mendigos para cortar os cabelos e comer um prato de sopa feita com o resto do entreposto local, and ear the lord words....enquanto afirmamos estar tudo bem.....na verdade esta tudo uma merda, feito desenganado de doença terminal overdosado de analgésicos, pouco ligando para o inferno pessoal que pós-supoem o desligamento do cordão de prata que mantem o corpo ligado a materia enquanto entramos em estado de frigidez morbida.....crying for chocolate and serotonnine.......folhetins suburbanos tentam disfarçar a tragédia mexicana enlatada do dia a dia enquanto em casa exaustos nos despimos dos encantos que pretedemos lançar aos olhos de quem fantasiosamente pretendemos seduzir seja namorada ou namorado comprometido com a postura de seriedade esperada de cada um de nós, mascaras de nossa devassidão...certezas poligamicas......infelicidade feminina.....a servent of servants......obrigadas a pintarem as unhas e a decorarem os lábios num falso jogo de beleza e exterminio emocional......who needs ya?......when shes washing the children's swaddles...sufferin' for a feeling.....cachorra de boca esperando uma dose a mais alem daquela inserida anus adentro feito supositório anestésico pré rape.....presupondo o enrolar da lingua nas macas do ambulatório com os braços espetados por seringas que conduzirão a glicose e os remedios regeneradores dos espasmos vitais...hellraiser...soon or later u feel this feels......batalhando feito louco por um cigarrinho de palha pelas esquinas de um suburbio sem favelas cheio de aeroportos e aviões de carreira......searchin' for some after midnight...trying a remedy to cure a pain in any language...overdosed for something u don't kwon why......duro esperando q alguém lhe faça uma presença......para q volte-mos para casa e livrarmo-nos do pesadelo das abstinencias e dos mensageiros que ladinamente nos negam os informes das missões q sequer tentaram cumprir.........in a perpetual motion again....do u belive that had life'n'happiness in this side???..sentimentos q só adictos podem compartilhar in a junkyard of a terapias de grupo nos grupos de NA, q ploriferam por ai tentando livrar nos do q pressupõem-se; miséria emocional.....e compartilhar com parentes treinados a não sucubirem com a desgraça pessoal da sobrecarga de serotoninas e endorfinas......vicious u hurt me with a flower...oh! honey you're so vicious..the summer dresse's your desire...feito os cristais que coletamos no tecidos do bolso para nos aliviarmo-nos das dores e das cãimbras indigentes.....e de nossas veias impregnadas por bocas sedentas of a diary sting......descartaveis ou compartilhadas pouco importa somos suicidas...dissidentes da vida carentes de morte....mórbidos em desejos...inconfessaveis em realidades.....tão afinados com a crueza da realidade que calariamos facilmente o mais afetado dos materialistas.......tal a crueza de nossa adquirida doença.....e a vastidão de nossos prazeres.......the rich junk stay alive...quase que à margem da doença q impele-nos a nevagar pelas sombras da noite feito criaturas que esperam as trevas escondidas atras dos black-outs das cortinas que decoram as casas aonde encontramos os suprimentos de nossas carencias....navegando pelas ruas desejando que esta ultima snuff of life nos faça esquecer this needle and the damage gone...mostrando nossos corpos jaziguos nas fotos de um jornal sensasionalista em uma manhã monótona qq...morreu de overdose na porta da oficina mecânica tentando se livrar do cano de escapamento....Jesus build my hot car.......i'm on fire!!!!burnin'n a personal hell!....feito gente tentando seduzir a todos sendo boazinha, subsequentemente inteligente sem barra to hangin' this long-felt want.....sentindo a pele arder feito batata quente dividida de mão em mão dos q se prevalençem do moralismo para venderem as facilidades da lei...u got loose this skin?...mães desesperadas vendendo a alma e a beleza que ainda resta de seus corpos para salvarem seus filhos dos serviços forçados das tinturarias que pressupoem a lavagem de suas almas e a libertação do q eles não querem libertar.....a lei jamais pode favorecer pervertidos......pedofilos e alpinistas adorados por fissurados cagões.......we don't wanna dance......when we lost ours souls in this word and sincerilly unbilive in a kingdom that promises commin'soon....ou em palavras nas bocas de pessoas que supoem estes sentimentos?????.......feitos cabelos rebeldes difarçados de gel fixador e atitudes parecidas com os sentimentos que dividimos.......sempre tem alguem para dividir a identificação de nossa dor.....sempre tem alguem dizendo que entende o que sentimos, pronto a espetar na nossa bunda o sossega leão para as dores que não queremos deixar de sentir.........feito barbeiro impodo-nos o corte de cabelo que não queremos, justificando a sua incapacidade de entender o que queremos de suas tesouras.....pressupondo-se a siccors hands maquiando nossa má aperencia...fazendo nossas cabeças diferentes de nossas necessidades de esquecimento.....incorporando-nos ao dia a dia de nossos opostos.....forçando-nos a afirmar o q jamais concordaremos, no estado normal de nossas crenças....stay out of it!...luv is not a just a kiss away...cum'n all'verybody we gonna have' good time.

say a simple-minded man:...i don't understanding the uncommon!...but i sense, that we need the love reing over all...when everyone need's a proof...(no ones loves without a reason!) or this is just another Naked Lunch?

Carefull that Danoninho, Juliana!

Meu querido danoninho
gosto de ocê bem geladinho.
Cremosinho de morango ou chocalate,
pode ser tambem de côco ou ameixa.
Mas tem que ser bem cremosinho!

Meu querido danoninho
gosto de ocê bem geladinho,
se me pedem um pouquinho,
logo mando ir ao mercadinho.
Vai lá comprar o seu
Pra comer sózinho.

Meu querido danoninho
gosto de ocê bem geladinho.
- Burrrp! Desculpe!
Mas tá muito gostosinho.

domingo, dezembro 18, 2005

Two hearts beats like one!


Quem lê a luz foca a alma!
sempre de alma presente, a luz corta o dia
o dia trespaça a História,
congela o passado
e projeta o futuro
traduzindo horizontes.
Imagem na ação!

Imaginação:

o mundo inteiro
em nossas mãos,
de outras mãos nascerão
o que contraditará o já contradito

de outros olhos leituras

diferentes das mesmas páginas

destas páginas a releitura da luz!


páginas atemporais de um mundo insano
caótico
nos abismos e nas referências mórbidas

o tempo, às vezes, inocente, outras perverso
serve
de guia em algum caminho de luz...

senderos de desventura,
busca desesperada de saída
exasperos adolescentes
feito ardência de tatuagem & ....
gemido seco no escuro....Clarevidência!

Este texto foi escrito pela Leiluka e eu
entre quinta feira e sábado, por e-mail.
a foto que ilustra o texto é dela
e a interferência é minha,

espero que ela goste!

In Margens

air guitar: ATÉ QDO ESPERAR?...pleberude
...esperandu pela'juda di deus!

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Heteronormativo

rosa bebê; - menina!
menino; - azul bebê!
pessoa <" / "> binário!
virtual, transparente!

What's your favourite color?

quinta-feira, dezembro 15, 2005

A palavra não ofende.
O que pode vir à ofender
é a contra dança.

A verdade é sempre revolucionária!

terça-feira, dezembro 13, 2005

THE WAY AS HE LIVED, WAS THE WAY AS HE DIED!




Cabe-me o triste destino de informar:
Foi encontrado no fim de semana no IML; o corpo de Jorge Luiz de Souza (Tatú), skatista, jornalista, frontman da banda: Coquetel Molotov, ícone do punk karioka, e... meu Kamarada!

Tatú!

Punks não morrem,
viram ervas daninhas.
Para continuarem a
corroer as raizes
do Sistema!

R.I.P bró!
S_E

http://pt.wikipedia.org/wiki/Coquetel_Molotov

Coquetel Molotov

sexta-feira, dezembro 02, 2005

This man had a gun, and he gonna use it. (Justifing the death deliverance.....like a full xpress dealer.)



Thi´s a portuguese default intenational language, like a virus in a first world soap-opera...a pop art, desmitificou o formalismo bahaus e a falsa ideia de que a humanidade vivia anos dourados, feito as fantasias de “Si” e as quais ele imagina serem as de “Outrem”, pois “Si” cerca-se da certeza de que o olhar de “Outrem” expressa a mesma perversidade, singularizada pela compreenção de q “Si” e “Outrem” entendem tudo sobre o assunto....que fulminantemente os indentifica e os cala como cumplices...... feitos pães de forma saltando das toasters automatizadas que maravilharam as familias antes do radio transistor e do bombardeio de eletrons transmissores de imagem e o advento da tv a cabo e a banda larga.....abusando de andy overdosado de sopa campebell's c/ cogumelos....crendo q é por ai q chegaremos ali, traduzindo-os momentaneamente como aqui!.....como a resposta aos anseios de cada um!...mortos não nos causam enganos, e, os pop ups, desdenham a necrofilia da arte...fucking fú....todos nós temos uma tecnica secreta....and, we wanna play a unknow-game!....suck’ng dry, this river of life!...do u wanna dance?.....Green Peace in power..defense the planet...mentiras marketeiras, dilacerando corações highlanders...insensiveis as aventuras dos novatos descobridores de corredores em meio a linearidade continuada pela crença de q gerações se perpetuarão na retidão q a interpretação da lei do criador traduzir, na boca dos q se dizem ouvidores da Misericórdia...idolatramente idealizada como um velocino de ouro, condenando a crença popular e as lendas que justificarão civilizações, ufos, abduzidos e rock'n'rollers entorno do planeta......adoro humanidade, entendo a profunda
compreenção de Deus em nossos corações, mais não consigo levar a sério os que expulsam demonios em nome do salvador...soul saviors!!!!.......entre roupas cor de rosa, reuniões no clube e i luv lucy no meio da manhã prenunciando a sessão da tarde e os episódios de antes da janta com papai sabe tudo...happy family playing a indoor game......feito erros foneticos que duas linguas insistem em confrontar com labios dissincronicos, talk’ng in diferents languages....usando frases que todos sempre acharam apelativas e xulas.......à desafiar o q os erros evidenciarão como pontos contraditos nas linhas q tento desenhar em confusão mixigenada com as crenças q não são minhas mas q reconheço como de outrens, diferentes daquelas que o conhecimento me faz crer como legitimas e inquestionaveis;..... passo a passo desgustada pelas rebarbas como quem come mingau quente!!!!....queima ele senhor!...the song will be remain the same.....quadro a quadro desmitificando o q todos tentam pintar como realidade, transpondo para o imaginário a reinvenção da realidade...a grande familia e a loucura que se cria em volta para realizar o ideal de cada um, traduzido um amorfo coletivo dramatizar da última ceia e a subsequente expulsão do paraíso!......evidenciado a espécie q salvará as almas em nome de alguém e os remedios que tomaremos para acalmar as angustias dos demonios reminicentes de outras eras, que; penduraram Odin de ponta cabeça nos ressecados galhos dos olmos enrigecidos pelo frio das existencias, e, apagaram o acento luminoso de Ra no meio dos desertos das almas...God Zilla!!!.....feito dentes esculpidos em titânio engolindo raios na fantasia q imagino como minha passagem fulminante pela senda q me levara a uma desintegração desinteressante e totalmente paradoxal com o que sonhei para mim.....that's life!

Say this rapping tongue in a midlle of the road: - No gods, hack’ng me!

quarta-feira, novembro 30, 2005

A lenda de Luther Blissett


Os cinco autores italianos que assinam 54 se reuniram em 2000, mas a história do Wu Ming começou em 1994, na Itália. Quatro rapazes de Bolonha criaram uma persona chamada Luther Blissett e, por meio dela, declararam-se em "guerrilha midiática" contra toda a sociedade do espetáculo e seu braço mais influente, a imprensa. Plantando histórias falsas em vários pontos do país, o projeto Luther Blissett enganou grandes corporações da mídia italiana, desvelando ao grande público a fragilidade da "verdade oficial". Em pouco tempo, a lenda de Blissett foi adotada informalmente por centenas de artistas, hackers e ativistas sociais na Europa, virou mito e tornou-se uma espécie de “Robbin Hood” da era da informação.

Luther Blissett existe de fato. É um ex-jogador de futebol de origem jamaicana que jogou em um time pequeno da Inglaterra e foi atacante do Milan na década de 80. Sua contratacão pelo time italiano foi considerada um grande erro. Porém, o Luther Blissett que prega peças na mídia e assina a autoria na novela Q - O Caçador de Hereges é uma grande farsa. Assim mesmo - ou por causa disso - seu romance de estréia, publicado na Itália em 1999, rapidamente chegou ao topo das listas de best sellers. Foi traduzido para diversas línguas e manteve-se entre os mais vendidos, mesmo tendo seu texto disponibilizado para download e reimpressão sem fins comerciais. Os autores, assim, figuram entre os maiores reponsáveis pela difusão da licença Creative Commons. No auge do sucesso e da repercussão na mídia, os criadores do projeto surpreenderam a todos mais uma vez, anunciando o seppuku de Luther Blissett. O guerrilheiro de muitos nomes cometeu suicídio, à moda samurai, antes que pudesse ser "entendido", ou "cooptado" pela grande máquina capitalista.

Em janeiro de 2000, um novo autor juntou-se aos quatro de Bolonha e surgiu Wu Ming. Desde então, novelas e ensaios foram produzidos pela ‘‘banda de autores’’, como eles mesmo se definem (‘‘somos uma banda de rock que não produz música, mas literatura’’). A Wu Ming Foundation, sucessão do projeto Luther Blissett, aprofundou-se na defesa da licença Creative Commons e envolveu-se em causas sociais. Os "sem nome" ("wu ming", em mandarim) tornaram-se ainda mais famosos e influentes do que Blissett. O nome que utilizam é um tributo aos dissidentes e uma recusa à fama - a identidade do grupo não é secreta, mas eles acreditam que o trabalho é mais importante do que suas biografias e rostos.

Inúmeros encontros com leitores proporcionaram à Wu Ming Foundation publicar Guerra Agli Umani, The New Thing e 54.Os italianos também assinam o roteiro do filme Lavorare con Lentezza (Trabalhando Devagar), de Guido Chiesa. Suas obras tornaram-se referência da arte subversiva. Em 2004 o grupo de rock alternativo Yo Yo Mundi lançou um àlbum conceitual inspirado no romance 54.

Vale a pena acompanhar a trajetória de Wu Ming!
Editora Conrad

segunda-feira, novembro 28, 2005

PUTA! (A blue spoken word)


Sou uma tigela, vazia à espera de qualquer cor; menos as que prefiro. O gosto de gozo na boca num filme de sacanagem, multirracial, multivirtual.

A música da boca do cantor, palavra na boca do orador....mal falada, dona do cabaço dos meninos e das asperezas dos frustrados, perdida querendo me encontrar e saber porquê me perdi, em meio a essa melodia suave ecoando pela sala em que aguardo a chuva para diluir minhas lágrimas. Passear pelas ruas, ouvir piadas, insultos.....sinto um coração bater mas, não é o meu: - Nisto!

Você tá acreditando que esta no jardim das delícias, na verdade estou distante num mar de esquecimentos e ausências. Eu sei, malditos grossos virtuais....welcome to the garden of your delights!!!!.............mãe de virtudes narcisícas sem direito a reconhecimento....mãe de Viados, Machos e Fêmeas espalhados por aí...em busca do gosto íntimo e suave.

A Greek in a circle of Jerk’s! Wankin’ on a glory hole...cummin’ in a frozen tile!...i have no sign, no life, no discipline! Não!, creia-me deprimida! pois vivo muito bem. È di fuder......ou se não viver, nunca confessarei....segredos & decepções da alcova!

Sou Bilabial, afirmando que; a boca vai bater com a língua nos dentes, logo após!...vadia, baladeira e dona de casa, amamentando a cria de meus enganos e acertos..ad eternum! Parceira de édipos desenganados e electras, quase absolut lover’s!....gozada sem gozar!...profanely blessed!

I adore to say it, with a full full mouth!

domingo, novembro 27, 2005

Um Mês!



Quase um mês neste buraco batendo boca comigo mesmo sem conseguir um argumento que me convença! E, já que não encontro nenhuma frase interessante, vou escrever qualquer coisa:


- China! - Seu Félah di Poóhtah! Cadê os Brotos do meu Chop Suey?

domingo, novembro 20, 2005

Ofício (Eat my words)



Tenho um ofício que é meu dileto, por ele me expresso e conto meu desprezo por minha geração....e a total falta de identificação com quase tudo e quase todos....me visto do negro apátrida no meio da sholdra patriótica e faço ouvido de surdo aos hinos que entoam louvando o que lhes rouba a liberdade e a valentia....o que não é o servir, senão abrir mão da liberdade?

Este ofício me leva a saber que nada sei e por isso, procuro sedento algo que lhe dê conteúdo...quando lembro escrevo direito, quando não, de qualquer maneira...mas amo di paixão este ofício de narrador de ambivalências, acertos e desacertos.....assim do jeito das aflições dos amantes pelo o calado gemido das alcovas....qualquer coisa que não se pareça poesia pois assim não sei compor!!!!.....é muito delicado para os traumas que me traduzem...muito doce para o amargor que acúmulo....mas mesmo assim contínuo a afirmar q o sentido da vida nasce do amor e do trabalho...não me importa a fome sacio-a com letras, e, é esta a minha verdadeira fome.

Quando estou aqui a vida passa por mim na velocidade que a percebo e por isso muitas vezes vou abreviando as palavras para não impedir a urgência destes sentimentos, que fluem feito sangue numa ferida hemorrágica traduzindo a dor e a aflição do corte....Gosto, sim de falar palavras aos seus ouvidos, e ter por um efêmero momento sua atenção. Mesmo que seja para lhe dizer nada, mas preencher o vazio que nos seca, desertificando os dias com a banalidade midiática do espetáculo....Não como circo mais como sanatório das angústias e as ganâncias que contabilizam o mercado e o show da produtividade kapitalista, não tenho nada contra sistemas mas não me envolvo com eles, só fico aqui olhando as sombras transformarem-se nas paredes, num jogo de silhuetas e dedos em busca do lugar donde vim! E que desesperadamente tento retornar.

Sei que não sou exemplo para ninguém, mas tento reconhecer meus erros para que você saiba deles....transforme os seus na palavra que me livrará...pois na sua palavra está o espelho deste ofício que você me ensina a exercê-lo e apreciá-lo com reverência e estima...sem ele não sei se teria sentido alguma coisa nesta vida errática que desenhei com minhas pernas. E que não faço nenhuma questão de ser perdoado, pois são eles a luz que tiraram de meus olhos a cegueira que obscurecia o desejo de saber qual a cor da liberdade,e, de dizer tudo o que vem a mente, buscar no corpos das amantes o porto seguro ao nômade que se acerca de mim quando me perco em minhas palavras e nas de outros.

sábado, novembro 19, 2005

Discurso Sobre a Servidão Voluntária..Etienne de La Boétie


Palavras iniciais
Etienne de La Boétie morreu aos 33 anos de idade, em 1563. Deixou sonetos, traduções de Xenofonte e Plutarco e o Discurso Sobre a Servidão Voluntária, o primeiro e um dos mais vibrantes hinos à liberdade dentre os que já se escreveram.
O Discurso foi publicado após a sua morte.
Toda a sua obra ficou como legado ao filósofo Montaigne (1533 – 1592), seu amigo pessoal que, diante de uma primeira publicação – pirata – do Discurso em 1571, viu-se obrigado a se pronunciar a respeito da Obra, que procura minimizar em seus efeitos apodando-lhe o epíteto de “obra de infância” e “mero exercício intelectual”. Montaigne, com todo o seu inegável brilho intelectual, era um Homem do Estado e disso não escapava.
Entre muitos pontos importantes e relevantes do Discurso em si, ressalta-se:
_ O poder que um só homem exerce sobre os outros é ilegítimo.
_ A preferência pela república em detrimento da monarquia.
_ As crenças religiosas são frequentemente usadas pelas monarquias para manter o povo sob sujeição e jugo.
_ Etienne de La Boétie afirma no Discurso a liberdade e a igualdade de todos os homens na dimensão política.
_ Evidencia, pela primeira vez na história, a força da opinião pública.
_ Repele todas as formas de demagogia.
_ Incursionando pioneiramente pelo que mais tarde ficará conhecido como psicologia de massas, informa da irracionalidade da servidão, desde o título provocativo da Obra, indicada como uma espécie de vício, de doença coletiva.
O Discurso, que no século XVI Montaigne considerava difícil prefaciar, hoje em dia é ainda tristemente atual.
O ser humano encontra-se em amarras auto-infligidas por toda a parte. Como dizia Manuel J. Gomes, importante tradutor de La Boétie para o português:
“Se em 1600 era tarefa difícil escrever um prefácio a La Boétie, hoje não é mais fácil. Hoje como nos tempos de La Boétie e Montaigne, a alienação é demasiado doce (como um refrigerante) e a liberdade demasiado amarga, porque está demasiado próxima da solidão. E da loucura.”
LCC – verão de 2004


Discurso Sobre a Servidão Voluntária
Etienne de La Boétie

Muita gente a mandar não me parece bem;
Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.
Assim proclamava publicamente Ulisses em Homero [Homero, Ilíada, cap. II] Teria toda a razão se tivesse dito apenas:
Muita gente a mandar não me parece bem.
Deveria, para ser mais claro, ter explicado que o domínio de muitos nunca poderia ser boa coisa pela razão de o domínio de um só que usurpe o título de soberano ser já assaz duro e pouco razoável; em vez disso, porém, acrescentou:
Um só chefe, um só rei, é o que mais nos convém.
Uma única desculpa terá Ulisses e é a necessidade que teve de recorrer a tais palavras para apaziguar as tropas amotinadas, adaptando (julgo) o discurso às circunstâncias mais do que à verdade.
Vistas bem as coisas, não há infelicidade maior do que estar sujeito a um chefe; nunca se pode confiar na bondade dele e só dele depende o ser mau quando assim lhe aprouver.
Ter vários amos é ter outros tantos motivos para se ser extremamente desgraçado.
Não quero por enquanto levantar o discutidíssimo problema de saber se as outras formas de governar a coisa pública são melhores do que a monarquia. A minha intenção é antes interrogar-me sobre o lugar que à monarquia cabe, se algum lhe cabe, entre as mais formas de governar. Porque não é fácil admitir que o governo de um só tenha a preocupação da coisa pública.
É melhor, todavia, que esse problema seja discutido separadamente, em tratado próprio, pois é daqueles que traz consigo toda a casta de disputas políticas.
Quero para já, se possível, esclarecer tão-somente o fato de tantos homens, tantas vilas, cidades e nações suportarem às vezes um tirano que não tem outro poder de prejudicá-los enquanto eles quiserem suportá-lo; que só lhes pode fazer mal enquanto eles preferem agüentá-lo a contrariá-lo.
Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e tão doloroso quanto impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os trata desumana e cruelmente.
Tal é a fraqueza humana: temos frequentemente de nos curvar perante a força, somos obrigados a contemporizar, não podemos ser sempre os mais fortes.
Se, portanto, uma nação é pela força da guerra obrigada a servir a um só, como a cidade de Atenas aos trinta tiranos, não nos espanta que ela se submeta; devemos antes lamentá-la; ou então, não nos espantarmos nem lamentarmos mas sofrermos com paciência e esperarmos que o futuro traga dias mais felizes.
Está na nossa natureza o deixarmos que os deveres da amizade ocupem boa parte da nossa vida. É justo amarmos a virtude, estimarmos as boas ações, ficarmos gratos aos que fazem o bem, renunciarmos a certas comodidades para melhor honrarmos e favorecermos aqueles a quem amamos e que o merecem. Assim também, quando os habitantes de um país encontram uma personagem notável que dê provas de ter sido previdente a governá-los, arrojado a defendê-los e cuidadoso a guiá-los, passam a obedecer-lhe em tudo e a conceder-lhe certas prerrogativas; é uma
prática reprovável, porque vão acabar por afastá-lo da prática do bem e empurrá-lo para o mal. Mas em tais casos julga-se que poderá vir sempre bem e nunca mal de quem um dia nos fez bem.
Mas o que vem a ser isto, afinal?
Que nome se deve dar a esta desgraça? Que vício, que triste vício é este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não governadas mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam chamar sua? Suportar a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, contra os quais dariam o sangue e a vida, mas de um só? Não de um Hércules ou de um Sansão, mas de um só indivíduo, que muitas vezes é o mais covarde e mulherengo de toda a nação, acostumado não tanto à poeira das batalhas como à areia dos torneios, menos dotado para comandar homens do que para ser escravo de mulheres?
Chamaremos a isto covardia? Temos o direito de afirmar que todos os que assim servem são uns míseros covardes?
É estranho que dois, três ou quatro se deixem esmagar por um só, mas é possível; poderão dar a desculpa de lhes ter faltado o ânimo. Mas quando vemos cem ou mil submissos a um só, não podemos dizer que não querem ou que não se atrevem a desafiá-lo.
Como não é covardia, poderá ser desprezo, poderá ser desdém? Quando vemos não já cem, não já mil homens, mas cem países, mil cidades e um milhão de homens submeterem-se a um só, todos eles servos e escravos, mesmo os mais favorecidos, que nome é que isto merece? Covardia?
Ora todos os vícios têm naturalmente um limite além do qual não podem passar. Dois podem ter medo de um, ou até mesmo dez; mas se mil homens, se um milhão deles, se mil cidades não se defendem de um só, não pode ser por covardia.
A covardia não vai tão longe, da mesma forma que a valentia também tem os seus limites: um só não escala uma fortaleza, não defronta um exército, não conquista um reino.
Que vício monstruoso então é este que sequer merece o nome vil de covardia? Que a natureza nega ter criado, a que a língua se recusa nomear?
Disponham-se de um lado cinqüenta homens armados e outros tantos de outro lado; ponham-se em ordem de batalha, prontos para o combate, sendo uns livres e lutando pela liberdade, enquanto os outros tentam arrebatá-la dos primeiros: a quais deles, por conjectura, se atribui a vitória? Quais deles irão para a luta com maior entusiasmo:
os que, em recompensa deste trabalho receberão o prêmio de conservar a liberdade ou os que, dos golpes que derem ou receberem, esperam tão-somente a servidão?
Os primeiros têm constantemente diante dos olhos a felicidade de sua vida passada, a esperança de no porvir a poderem conservar. Preocupa-os menos o que têm de sofrer no decurso da batalha do que tudo o que vão ter de suportar eles, os filhos e toda a posteridade. Os outros nada têm que os anime, a não ser um pouco de cobiça que é insuficiente para protegê-los do perigo e tão pouco ardente que não tardará a extinguir-se logo que derramem as primeiras gotas de sangue.
Nas muito famosas batalhas de Milcíades, Leônidas e Temístocles, travadas há já dois mil anos e que permanecem tão frescas na memória dos livros e dos homens como se tivessem acontecido ontem, nessas batalhas travadas na Grécia para bem da Grécia e exemplo do mundo inteiro, donde terá vindo aos gregos escassos não digo o poder mas o ânimo para se oporem à força de navios tão numerosos que mal cabiam no mar? E para desbaratarem nações tão numerosas que em toda a armada grega não se achariam soldados que chegassem para preencherem, se tal fosse mister, os postos de comandantes desses navios?
É que, em boa verdade, o que estava em causa nesses dias gloriosos não era tanto a luta entre gregos e persas como a vitória da liberdade sobre a dominação, da razão sobre a cupidez.
Quantos prodígios temos ouvido contar sobre a valentia que a liberdade põe no coração dos que a defendem!
Mas o que acontece afinal em todos os países, com todos os homens, todos os dias?
Quem, só de ouvir contar, sem o ter visto, acreditaria que um único homem tenha logrado esmagar mil cidades, privando-as da liberdade?
Se casos tais acontecessem apenas em países remotos e outros no-los contassem, quem não diria que era tudo invenção e impostura?
Ora o mais espantoso é sabermos que nem sequer é preciso combater esse tirano, não é preciso defendermos-nos dele.
Ele será destruído no dia em que o país se recuse a servi-lo.
Não é necessário tirar-lhe nada, basta que ninguém lhe dê coisa alguma.
Não é preciso que o país faça coisa alguma em favor de si próprio, basta que não faça nada contra si próprio.
São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir.
É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios.
Se fosse difícil recuperar a liberdade perdida, eu não insistiria mais; haverá coisa que o homem deva desejar com mais ardor do que o retorno à sua condição natural, deixar, digamos, a condição de alimária e voltar a ser homem?
Mas não é essa ousadia o que eu exijo dele; limito-me a não lhe permitir que ele prefira não sei que segurança a uma vida livre.
Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la?
Se basta um ato de vontade, se basta desejá-la, que nação há que a considere assim tão difícil?
Como pode alguém, por falta de querer, perder um bem que deveria ser resgatado a preço de sangue? Um bem que, uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar?
Veja-se como, ateado por pequena fagulha, acende-se o fogo, que cresce cada vez mais e, quanto mais lenha encontra, tanta mais consome; e como, sem se lhe despejar água, deixando apenas de lhe fornecer lenha a consumir, a si próprio se consome, perde a forma e deixa de ser fogo.
Assim são os tiranos: quanto mais eles roubam, saqueiam, exigem, quanto mais arruínam e destroem, quanto mais se lhes der e mais serviços se lhes prestarem, mais eles se fortalecem e se robustecem até aniquilarem e destruírem tudo. Se nada se lhes der, se não se lhe obedecer, eles, sem ser preciso luta ou combate, acabarão por ficar nus, pobres e sem nada; da mesma forma que a raiz, sem umidade e alimento, se torna ramo seco e morto.
Os audazes, para que obtenham o que procuram, não receiam perigo algum, os avisados não recusam passar por problemas e privações. Os covardes e os preguiçosos não sabem suportar os males nem recuperar o bem. Deixam de desejá-lo e a força para o conseguirem lhes é tirada pela covardia, mas é natural que neles fique o desejo de o alcançarem. Esse desejo, essa vontade, são comuns
aos sábios e aos indiscretos, aos corajosos e aos covardes; todos eles, ao atingirem o desejado, ficam felizes e contentes.
Numa só coisa, estranhamente, a natureza se recusa a dar aos homens um desejo forte. Trata-se da liberdade, um bem tão grande e tão aprazível que, perdida ela, não há mal que não sobrevenha e até os próprios bens que lhe sobrevivam perdem todo o seu gosto e sabor, corrompidos pela servidão.
A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter.
Gentes miserandas, povos insensatos, nações apegadas ao mal e cegas para o bem!
Assim deixais que vos arrebatem a maior e melhor parte das vossas riquezas, que devastem os vossos campos, roubem as vossas casas e vo-las despojem até das antigas mobílias herdadas dos vossos pais!
A vida que levais é tal que (podeis afirmá-lo) nada tendes de vosso.
Mas parece que vos sentis felizes por serdes senhores apenas de metade dos vossos haveres, das vossas famílias e das vossas vidas; e todo esse estrago, essa desgraça, essa ruína provêm afinal não dos seus inimigos, mas de um só inimigo, daquele mesmo cuja grandeza lhe é dada só por vós, por amor de quem marchais corajosamente para a guerra, por cuja grandeza não recusais entregar à morte as vossas próprias pessoas.
Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes.
Onde iria ele buscar os olhos com que vos espia se vós não lhos désseis?
Onde teria ele mãos para vos bater se não tivesse as vossas?
Os pés com que ele esmaga as vossas cidades de quem são senão vossos?
Que poder tem ele sobre vós que de vós não venha?
Como ousaria ele perseguir-vos sem a vossa própria conivência?
Que poderia ele fazer se vós não fôsseis encobridores daquele que vos rouba, cúmplices do assassino que vos mata e traidores de vós mesmos?
Semeais os vossos frutos para ele pouco depois calcar aos pés. Recheais e mobiliais as vossas casas para ele vir saqueá-las, criais as vossas filhas para que ele tenho em quem cevar sua luxúria.
Criais filhos a fim de que ele, quando lhe apetecer, venha recrutá-los para a guerra e conduzi-los ao matadouro, fazer deles acólitos da sua cupidez e executores das suas vinganças.
Matai-vos a trabalhar para que ele possa regalar-se e refestelar-se em prazeres vis e imundos.
Enquanto vós definhais, ele vai ficando mais forte, para mais facilmente poder refrear-vos.
E de todas as ditas indignidades que os próprios brutos, se as sentissem, não suportariam, de todas podeis libertar-vos, se tentardes não digo libertar-vos, mas apenas querer fazê-lo.
Tomai a resolução de não mais servirdes e sereis livres. Não vos peço que o empurreis ou o derrubeis, mas somente que o não apoieis: não tardareis a ver como, qual Colosso descomunal, a que se tire a base, cairá por terra e se quebrará.
Os médicos aconselham a não se tocar com a mão nas chagas incuráveis; não é, pois, sensato que eu dê conselhos a um povo que há muito perdeu a consciência e cuja doença, uma vez que ele já não sente dor, é evidentemente mortal. Temos, antes, de procurar saber como esse desejo teimoso de servir se foi enraizando a ponto de o amor à liberdade parecer coisa pouco natural.
Antes demais, eu creio firmemente que, se nós vivêssemos de acordo com a natureza e com os seus ensinamentos, seríamos naturalmente obedientes ao país, submissos à razão e de ninguém escravos.
Todos os homens, por si próprios, sem outro conselho que não seja o da natureza, guardam obediência ao pai e à mãe; quanto à razão, discutem muito os acadêmicos e todas as escolas filosóficas se ela nasce ou não conosco.
De momento penso não errar se crer que há na nossa alma uma semente natural de razão, a qual, se cultivada com bons conselhos e bons costumes, floresce em virtude; se, pelo contrário, é atacada pelos vícios, morre de asfixia e aborta.
Uma coisa é claríssima na natureza, tão clara que a ninguém é permitido ser cego a tal respeito, e é o fato de a natureza, ministra de
Deus e governanta dos homens, nos ter feito todos iguais, com igual forma, aparentemente num mesmo molde, de forma a que todos nos reconhecêssemos como companheiros ou mesmo irmãos.
Ao fazer as partilhas dos dons que nos legou, deu, mais a uns do que a outros, certos dons corporais e espirituais; mas é igualmente certo que não pretendeu pôr-nos neste mundo como em campo fechado, nem deu aos mais fortes e aos mais avisados ordem para, quais salteadores emboscados no mato e armados, dizimarem os mais fracos.
É de crer, isso sim, que, favorecendo alguns e desfavorecendo outros, pretendia dar lugar à fraterna afeição, dar-lhes meios de se manifestar, pois se a uns assiste o poder de ajudar, os outros tinham necessidade de ser ajudados.
Esta boa mãe deu-nos a todos a terra para nela morarmos, albergou-nos a todos numa mesma casa, moldou-nos a todos numa mesma massa, para assim todos podermos mirar-nos e reconhecer-nos uns nos outros; a todos em comum outorgou o grande dom da voz e da palavra para sermos mais amigos e mais irmãos e, pela comum e mútua declaração dos nossos pensamentos, estabelecermos a comunhão de nossas vontades.
E pois ela buscou por todos os meios apertar e estreitar mais fortemente os nós da nossa aliança e sociedade, e por todas as formas mostrou mais desejar ver-nos unidos do que unos, não há dúvida de que somos todos companheiros e ninguém poderá jamais admitir que a natureza, integrando-nos a todos numa sociedade, tenha destinado uns para escravos.
Não importa verdadeiramente discutir se a liberdade é natural, provado que esteja ser a escravidão uma ofensa para quem a sofre e uma injúria à natureza que em tudo quanto faz é razoável.
Não há dúvidas, pois, de que a liberdade é natural e que, pela mesma ordem e de idéias, todos nós nascemos não só senhores da nossa alforria mas também com condições para a defendermos.
Se acaso pusermos isso em dúvida e descermos tão baixo que não sejamos capazes de reconhecer qual o nosso direito e as nossas qualidades naturais, vou ter de vos tratar como mereceis e por os próprios animais a dar-vos lições e a ensinar-vos qual é vossa verdadeira natureza e condição.
Só quem for surdo não ouve o que dizem os animais: viva a liberdade! Muitos deles morrem quando os apanham. Como o peixe
que, fora da água, perde a vida, também outros animais se negam a viver sem a liberdade que lhes é natural.
Se os animais estabelecessem entre si quaisquer grandezas e proeminências, fariam (creio firmemente) da liberdade a sua nobreza.
Alguns há que, dos maiores aos menores, ao serem presos, opõem resistência com as garras, os chifres, as patas e o bico, demonstrando assim claramente o quanto prezam a liberdade perdida. E uma vez no cativeiro, dão evidentes sinais do conhecimento que têm da sua desgraça e deixam ver perfeitamente que se sentem mais mortos do que vivos, continuando a viver mais para lamentarem a liberdade perdida do que por lhes agradar a servidão.
O que quer dizer o elefante que, depois de se defender até mais não poder, sentindo-se impotente e prestes a ser apanhado, espeta as presas nas árvores e as quebra, assim mostrando o grande desejo que tem de continuar livre como nasceu?
Assim dá a entender que deseja negociar com os caçadores, dando-lhes os dentes para que o soltem, entregando-lhes o marfim em penhor da liberdade.
Começamos a domesticar o cavalo, desde o momento em que ele nasce, preparamo-lo para nos servir e não podemos glorificar-nos de que, uma vez domado, ele não morde o freio e não se empina quando o esporeamos, como se (assim parece) quisesse mostrar à natureza e testemunhar por essa forma que serve não de boa vontade mas por ser obrigado a servir.
Que dizer perante isto? Que
Até os bois sob o jugo andam gemendo
E na gaiola as aves vão chorando
como escrevi no tempo em que versejava à francesa (não receio, escrevendo-te me particular, citar versos meus, coisa que nunca faço; como tens mostrado gostar deles, não me acusarás de ser pretensioso).
Todas as coisas que têm sentimento sentem a dor da sujeição e suspiram pela liberdade; as alimárias, feitas para servirem o homem não são capazes de se habituar à servidão sem protestarem desejos contrários.
A que azar, pois, se deverá que o homem, livre por natureza, tenha perdido a memória da sua condição e o desejo de a ela regressar?
Há três espécies de tiranos. Refiro-me aos maus príncipes. Chegam uns ao poder por eleição do povo, outros por força das armas, outros sucedendo aos da sua raça.
Os que chegam ao poder pelo direito da guerra portam-se como quem pisa terra conquistada.
Os que nascem reis, as mais das vezes, não são melhores; nascidos e criados no sangue da tirania, tratam os povos em quem mandam como se fossem seus servos hereditários; e, consoante a compleição a que são mais atreitos, avaros ou pródigos, assim fazem do reino o que fazem com outra herança qualquer.
Aquele a quem o povo deu o Estado deveria ser mais suportável; e sê-lo-ia a meu ver, se, desde o momento em que se vê colocado em altos postos e tomando o gosto à chamada grandeza, não decidisse ocupá-los para todo o sempre. O que geralmente acontece é tudo fazerem para transmitirem aos filhos o poder que o povo lhes concedeu. E, tão depressa tomam essa decisão, por estranho que pareça, ultrapassam em vício e até em crueldade os outros tiranos; para conservarem a nova tirania, não acham melhor meio do que aumentar a servidão e afastar tanto dos súditos a idéia de liberdade que eles, tendo embora a memória fresca, começam a esquecer-se dela.
Assim, para dizer toda a verdade, encontro entre eles alguma diferença, mas não vejo por onde escolher.
Sendo diversos os modos de alcançar o poder, a forma de reinar é sempre idêntica.
Os eleitos procedem como quem doma touros; os conquistadores como quem se assenhoreia de uma presa a que têm direito; os sucessores como quem lida com escravos naturais.
Se acaso hoje nascesse um povo completamente novo, que não estivesse acostumado à sujeição nem soubesse o que é a liberdade, que ignorasse tudo sobre uma e outra coisa, incluindo os nomes, e se lhe fosse dado a escolher entre o ser sujeito ou o viver a liberdade, qual seria a escolha desse povo?
Não custa a responder que prefeririam obedecer à razão em vez de servirem a um homem; a não ser que se tratasse dos israelitas, os quais, sem ninguém os obrigar e sem necessidade, elegeram um tirano [I Samuel, capítulo 8]; mas nunca leio a história de tal povo sem uma grande decepção e alguma fúria, tanta que quase me alegro por lhe terem acontecido tantas desgraças.
Uma coisa é certa, porém: os homens, enquanto neles houver algo de humano, só de deixam subjugar se foram forçados ou enganados; enganados pelas armas estrangeiras, como Esparta e Atenas pelas forças de Alexandre, ou pelas facções, como aconteceu quando o governo de Atenas caiu nas mãos de Pisístrates [Pisístrates (600 – 527) foi por três vezes tirano de Atenas. Da primeira vez foi derrubado por Licurgo. Da segunda por Hermódio e Aristogíton. Deve-se, contudo, a Pisístrates a compilação das obras de Homero, como a Ilíada e a Odisséia.].
Muitas vezes perdem a liberdade porque são levados ao engano, não são seduzidos por outrem mas sim enganados por si próprios. Assim, o povo de Siracusa, cidade capital da Sicília, denominada hoje Saragoça [aqui Boétie se equivoca...], apertado pelas guerras, sem olhar a nada a não ser o perigo, elevou ao poder Dionísio Primeiro e entregou-lhe o comando do exército. Tantos poderes lhe foi dando que o velhaco, uma vez vitorioso, como se tivesse triunfado não sobre os inimigos, mas sobre os cidadãos, subiu de capitão a rei e de rei a tirano.
Incrível coisa é ver o povo, uma vez subjugado, cair em tão profundo esquecimento da liberdade que não desperta nem a recupera; antes começa a servir com tanta prontidão e boa vontade que parece ter perdido não a liberdade mas a servidão.
É verdade que, a princípio, serve com constrangimento e pela força; mas os que vêm depois, como não conheceram a liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem esforço e fazem de boa mente o que seus antepassados tinham feito por obrigação.
Assim é: os homens nascem sob o jugo, são criados na servidão, sem olharem para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, nunca pensam ter outro direito nem outro bem senão o que encontraram ao nascer, aceitam como natural o estado que acharam à nascença.
E todavia não há herdeiro tão pródigo e desleixado que uma vez não passe os olhos pelos livros de registros, para ver se goza de todos os direitos hereditários e se não foi esbulhado nos seus direitos, ele ou o seu predecessor.
Mas o costume, que sobre nós exerce um poder considerável, tem uma grande orça de nos ensinar a servir e (tal como de Mitrídates se diz que aos poucos foi se habituando a beber veneno) a engolir tudo até que deixamos de sentir o amargor do veneno da servidão.
Não pode negar-se que a natureza tem força para nos levar aonde ela queira e fazer a nós livres ou escravos; mas importa confessar que ela tem sobre nós menos poder do que o costume e que a natureza, por muito boa que seja, acaba por se perder se não for tratada com os cuidados necessários; e o alimento que comemos transmite-nos muito de seu, faça a natureza o que fizer.
As sementes do bem que a natureza em nós coloca são tão pequenas e inseguras que não agüentam o embate do alimento contrário. Não se mantêm facilmente, estragam-se, desfazem-se, reduzem-se a nada. Como acontece com as árvores de fruto, possuidoras de uma natureza própria que conservarão enquanto as deixarem; mas passarão a ter outra e a dar frutos estranhos, não os delas, a partir do momento em que sejam enxertadas.
As ervas têm cada uma a sua propriedade, a sua natureza e a sua singularidade próprias; mas o frio, o tempo, a terra ou a mão do jardineiro acrescentam-lhe ou tiram-lhe muitas das suas virtudes. Vê-se num sítio uma planta que outro sítio não reconhece.
Vejam-se os venezianos, um punhado de pessoas livres, tanto que até o pior de todos se recusaria a ser rei, nascidos e criados de tal modo que a grande ambição deles é defenderem ciosamente a liberdade de cada um; educados desde o berço nestes princípios, não aceitariam todas as outras felicidades da terra, se para isso tivessem de perder a menor de suas liberdades. Vejam-se os venezianos, repito, e repare-se depois nos que habitam as terras daquele a que chamamos Grão-Senhor, gente que nada mais faz do que servi-lo e que, para o manterem no poder, dão a própria vida.
Diria quem visse uns e outros que possuem todos a mesma natureza?
Não julgaria antes que saíra de uma cidade de homens para entrar num curral de animais? Licurgo, reformador de Esparta, criara (diz-se) dois cães que eram irmãos, alimentados com o mesmo leite, um deles habituado a ficar na cozinha e o outro acostumado a correr pelo campo, ao som da trompa e da corneta; querendo mostrar ao povo lacedemônio que os homens são o que a educação faz de cada um, colocou os dois cães no meio da praça e, no meio deles, uma sopa e uma lebre. Um correu para o prato e o outro para a lebre. Muito embora (disse ele) fossem irmãos.
Lembrarei com prazer um dito dos favoritos de Xerxes, senhor da Pérsia, a respeito dos espartanos.
Quando Xerxes se aparelhava para conquistar a Grécia, mandou embaixadores às cidades gregas, a pedir-lhes água e terra. A Esparta e Atenas não os enviou, porque os enviados de seu pai, Dario que lá tinha ido fazer igual pedido, tinham-nos os espartanos e atenienses lançado em covas e outros em poços, dizendo-lhes que tirassem terra e água à vontade e que fossem levá-la a seu príncipe.
Nenhum daqueles povos tolerava que, sequer por palavras, alguém lhes tocasse na liberdade.
Por assim terem feito, viram os espartanos que tinham incorrido no ódio dos próprios deuses, especialmente no de Taltíbio, deus dos arautos.
Para os apaziguarem, mandaram a Xerxes dois cidadãos, para que fossem à presença dele e ele os tratasse como lhe aprouvesse, tirando assim a desforra dos embaixadores que seu pai enviara e tinham sido mortos. Dois espartanos, um de nome Specto e outro Bulis, ofereceram-se voluntariamente para esta missão.
Foram e, pelo caminho, entraram no palácio de um persa chamado Gidarno, lugar-tenente do rei em todas as cidades do litoral da Ásia. Este os recebeu com muita honraria. E como fossem conversando sobre vários assuntos, perguntou-lhes que motivos tinham para recusarem a amizade do rei. “Podeis crer, espartanos (dizia-lhes), juro-vos que o rei sabe honrar quem o merece e, se vos tornardes seus súditos, vereis que assim é. Se aceitardes e ele vos conhecer, vereis como será cada um de vós nomeado imediatamente senhor de uma cidade da Grécia.”
Ao que lhe responderam os lacedemônios: “Ruim conselho é o que nos dás, Gidarno. O bem que nos prometes, já o experimentaste, mas nada sabes do que nós já possuímos; gozas do favor do rei, mas nada sabes da liberdade, do gosto que ela tem, da sua doçura. Se a conhecesses, havias de nos aconselhar a defendê-la, não só com lança e escudo, mas até com unhas e dentes.”
O espartano é que tinha razão; mas um e outro falavam de acordo com o que tinham aprendido.
Não era possível ao persa avaliar a liberdade, pois nunca a tivera, nem ao lacedemônio aceitar a sujeição, depois de ter conhecido o gosto da liberdade.
Catão de Útica, quando era ainda menino de escola, entrava muitas vezes na casa do ditador Sila cujas portas lhe estavam abertas, não só por pertencer a uma família nobre, como até por ser parente próximo de Sila.
Acompanhava-o sempre o preceptor, como era costume entre os filhos de boas famílias.
Deu ele então conta de que em casa de Sila, na presença deste ou por sua ordem, muitos cidadãos eram presos e condenados, eram uns banidos e outros estrangulados, decretava-se a confiscação dos bens e era perdida a cabeça de muitos.
Ou seja, mais parecia o paço do tirano do que a morada do governador da cidade, era menos um tribunal de justiça do que uma espelunca da tirania.
Perguntou o nobre infante ao preceptor: “Dar-me-eis um punhal? Metê-lo-ei sob a toga e, como entro muitas vezes nos aposentos de Sila, antes de ele acordar, o meu braço há de ter força suficiente para libertar o povo.”.
Este é um dito digno de Catão. Assim já se revelava digno da morte que teve.
Mas se porventura a história não referisse o nome dele nem o local, seria facílimo adivinhar que se trata de um romano e natural de Roma, da verdadeira Roma, quando ela era livre.
Mas para que dizer mais? Em boa verdade não creio que o país o a terra importem muito. Em todos os países em todos os climas, sabe mal a sujeição e é gostosa a liberdade.
Dignos de dó são os que nasceram com a canga no pescoço.
Devem ser desculpados e perdoados, pois, nunca tendo visto sequer a sombra da liberdade e ninguém lha tendo mostrado, não sabem como é mal serem escravos.
Há países em que o Sol aparece de modo diverso daquele a que estamos habituados: depois de brilhar durante seis meses seguidos, deixa-os ficar mergulhados na escuridão, nunca os visitando no meio do ano; se os que nasceram durante essa longa noite nunca tivessem ouvido falar do dia, seria de espantar que eles se habituassem às trevas em que nasceram e nunca desejassem a luz?
Nunca se lastima o que não se conhece, só se tem desgosto depois de ter gozado o prazer, depois de se ter conhecido o bem e se recordar a alegria passada.
É natural no homem o ser livre e o querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que a educação lhe dá.
Diga-se, pois, que acaba por ser natural tudo o que o homem obtém pela educação e pelo costume; mas da essência da sua natureza é o que lhe vem da mesma natureza pura e não alterada;
assim, a primeira razão da servidão voluntária é o hábito: provam-no os cavalos sem rabo que no princípio mordem o freio e acabam depois por brincar com ele; e os mesmos que se rebelavam contra a sela acabam por aceitar a albarda e usam muito ufanos e vaidosos os arreios que os apertam.
Afirmam que sempre viveram na sujeição, que já os pais assim tinham vivido. Pensam que são obrigados a usar freio, provam-no com exemplos e com o fato de há muito serem propriedade daqueles que os tiranizam.
Mas a verdade é que os anos não dão o direito de se praticar o mal, antes agravam a injúria.
Sempre haverá umas poucas almas melhor nascidas do que outras, que sentem o peso do jugo e não evitam sacudi-lo, almas que nunca se acostumam à sujeição e que, à imitação de Ulisses, o qual por mar e terra procurava avistar o fumo de sua casa, nunca se esquecem dos seus privilégios naturais, nem dos antepassados e de sua antiga condição.
São esses dotados de claro entendimento e espírito clarividente; não se limitam, como o vulgo, a olhar só para o que têm adiante dos pés, olham também para trás e para frente e, estudando bem as coisas passadas, conhecem melhor o futuro e o presente.
Além de terem um espírito bem formado, tudo fazem para aperfeiçoá-lo pelo estudo e pelo saber.
Esses, ainda quando a liberdade se perdesse por completo e desaparecesse para sempre do mundo, não deixariam de imaginá-la, de senti-la e saborear; para eles, a servidão, por muito bem disfarçada que lhes aparecesse, nunca seria coisa boa.
O Grão-Turco teve perfeita consciência de que os livros e a doutrina, mais do que qualquer outra coisa, dão aos homens a capacidade de se conhecerem e de odiarem a tirania. Sabe-se que nas suas terras não há mais sábios do que os que lhe convém a ele.
Acontece que o zelo e a dedicação dos que, apesar de tudo, prezam a liberdade, não têm efeito algum, pois, mesmo que sejam em grande número, não se podem conhecer uns aos outros.
A tirania subtrai-lhes toda e qualquer liberdade de agir, de falar e quase de pensar.
Têm de guardar só para eles as suas fantasias. Razão tinha Momo para zombar, quando censurou o homem forjado por Vulcano, por não lhe ter feito no coração uma janela através da qual pudessem ser vistos os seus pensamentos.
É sabido que Brutus e Cássio, ao planejarem a libertação de Roma, ou antes, do mundo inteiro, não quiseram que Cícero, o maior zelador do bem público, entrasse na conspiração; julgaram que tinha um coração demasiado débil para tal façanha, confiavam na vontade dele, mas não estavam muito seguros da sua coragem. Quem estudar os efeitos da antiguidade e as velhas crônicas descobrirá que, vendo-se o país mal governado e maltratado, e tomando-se a decisão firme de libertá-lo, poucos ou nenhum deixaram de consegui-lo; tiveram nisso a ajuda da própria liberdade, ansiosa por renascer.
Harmódio, Aristogíton, Trasíbulo, Brutus-o-Velho, Valério e Díon executaram cabalmente o que valorosamente planejaram. Em casos assim, a sorte quase nunca falta a quem quer o bem. O jovem Brutus e Cássio derrubaram a servidão e repuseram a liberdade, tendo por isso morrido, mas não desonrosamente. Desonroso seria dizer que foi desonrosa a vida ou a morte desses jovens. Tristeza e desgraça foram a ruína da república que viria a ser enterrada com eles. As conjuras que depois houve contra os imperadores romanos foram todas atos de gente ambiciosa e não devemos lamentar as derrotas que sofreram; era evidente que não queriam derrubar mas arruinar a coroa, pretendiam expulsar o tirano e manter a tirania. Não é para mim desejável que eles tivessem triunfado e apraz-me que, pelo exemplo, tenham mostrado com não se deve abusar do sagrado nome da liberdade para levar a cabo ruins empreendimentos.
Mas, voltando ao assunto principal de que me afastei: a primeira razão que leva os homens a servirem de boamente é o terem nascidos e sido criados na servidão.
A esta soma-se outra que é a de, sob a tirania, os homens se tornarem covardes e efeminados.
Nisso concordo com Hipócrates, pai da medicina, que assim afirmou e escreveu num de seus livros, intitulado Das Doenças.
Este homem tinha o coração no lugar e bem o demonstrou quando o rei quis atraí-lo para junto de si, com muitas dádivas e oferendas; respondeu-lhe francamente que teria muitos escrúpulos em tratar e curar os bárbaros que queriam matar os gregos e de pôr a sua arte a serviço de um rei que pretendia escravizar a Grécia.
A carta que lhe mandou pode ainda hoje ver-se entre as suas outras obras e constituirá para todo o sempre uma prova do seu bom coração e de sua natureza nobre.
Com a perda da liberdade, perde-se imediatamente a valentia.
As pessoas escravizadas não mostram no combate qualquer ousadia ou intrepidez.
Vão para o castigo como que manietadas e entorpecidas, como quem vai cumprir uma obrigação.
E não sentem arder no coração o fogo da liberdade que faz desprezar o perigo e dá ganas de comprar com a morte, ao lado dos companheiros, a honra da glória.
Entre homens livres, todos disputam invejosamente quem há de ser o primeiro a servir o bem comum; todos desejam ter o seu quinhão no mal da derrota ou no bem da vitória. Mas as pessoas escravizadas, além desta falta de valor na guerra, perdem também a energia em todo o resto, têm o coração abatido e mole e não são capazes de grandes ações.
Os tiranos o sabem e, à vista deste vício, tudo fazem para piorá-lo.
Xenofonte, historiador grave e da melhor cepa entre os gregos, em um livro fez Simônides falar com Hierão, rei de Siracusa, sobre as misérias dos tiranos.
É um livro eivado de bons costumes e graves argumentos e, a meu ver, escrito com muita graça. Bom seria que todos os tiranos que já houve pusessem diante dos olhos e dele se servissem como de um espelho.
Não creio que deixassem de ver nele todas as suas verrugas e não se envergonhassem de todas as suas manchas.
Conta no referido tratado o tormento por que passam os tiranos que, por fazerem mal a todos, a todos devem temer.
Diz entre outras coisas que os maus reis recorrem a estrangeiros para fazerem a guerra, subornam-nos e não se atrevem a meter armas nas mãos dos próprios súditos a quem ofenderam.
Reis houve, alguns até franceses, mais outrora do que nos dias de hoje, que contrataram para a guerra mais de uma nação estrangeira, com intenção de preservarem os seus, por acharem que não era perdido o dinheiro gasto em defesa das pessoas.
Era o que dizia Cipião (o grande Africano, julgo) para quem valia mais defender a vida de um cidadão do que desbaratar cem inimigos.
Mas não há dúvida alguma de que o tirano se julga absolutamente seguro e só se preocupa quando percebe que já não tem a seu serviço um único homem de valor.
Com razão se lhe poderá dizer nessa altura o que Trasão, em Terêncio, se gloria de ter dito ao domador de elefantes:
Tão bravo vos hei mostrado
Que sois das bestas criado.
Mas esse estratagema com que os tiranos humilham os súditos está, mais do que em qualquer outro lado, explicitado no que Ciro fez aos lídios, depois de se ter apoderado de Sardes, capital da Lídia, quando aprisionou o riquíssimo rei Creso e o levou cativo. Trouxeram-lhe a notícia de que os de Sardes se tinham revoltado. Ter-lhe-ia sido fácil dominá-los.
Não desejando saquear uma tão bela cidade nem querendo destacar para lá um exército que a vigiasse, recorreu a um outro expediente. Fundou nela bordéis, tabernas e jogos públicos e publicou um decreto que obrigava os habitantes a freqüentá-los.
Tão bons resultados teve esta guarnição que foi desnecessário daí em diante levantar a espada contra os lídios. Os desgraçados divertiram-se a inventar toda a casta de jogos, de tal forma que a palavra latina usada para significar “passatempos” é a palavra “ludi”, que vem de “Lydi”, lídios.
Nem todos os tiranos foram tão explícitos no seu desejo de efeminarem os homens, mas o que este ordenou formalmente foi, em grande parte, realizado de forma velada.
É muito próprio do vulgo, mormente o que pulula nas cidades, desconfiar de quem o estima e ser ingênuo para com aqueles que o enganam.
Atrair o pássaro com o apito ou o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a servidão, pois basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante.
É espantoso como eles se deixam levar pelas cócegas.
Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania.
Deste meio, desta prática, destes engodos se serviam os tiranos para manterem os antigos súditos sob o jugo. Os povos, assim ludibriados, achavam bonitos estes passatempos, divertiam-se com o vão prazer que lhes passava diante dos olhos e habituavam-se a servir com simplicidade igual, se bem que mais nociva, à das crianças que aprendem a ler atraídas pelas figuras coloridas dos livros iluminados.
Os tiranos romanos decretaram também na celebração freqüente das decenálias públicas, para as quais atraiam a canalha que põe acima de tudo os prazeres da boca.
Nem o mais esclarecido de todos eles trocaria a malga da sopa pela liberdade da república de Platão.
Os tiranos ofereciam o quarto de trigo, o sesteiro de vinho e o sestércio. E os vivas ao rei eram então coisa triste de ouvir.
Não davam conta, os néscios, de que recuperavam dessa forma parte do que era seu e que não podia o tirano dar-lhes coisa que não lhes tivesse furtado antes.
O que hoje ganhava o sestércio, o que se fartava de comer no festim público, louvando a grande liberalidade de Tibério e Nero, era no dia seguinte obrigado a entregar os seus haveres à avareza, os filhos da luxúria e o próprio sangue à crueldade daqueles magníficos imperadores, e fazia-o sem dizer palavra, mudo como uma pedra, quedo como um cepo.
O povo sempre foi assim.
É perante o prazer que honestamente não pode atingir, aberto e dissoluto e, face ao agravo e à dor que honestamente não deveria sofrer, insensível.
Não sei hoje em dia de pessoa alguma que, ao ouvir falar de Nero, não trema só com o nome de tão vil monstro, de tão hedionda e imunda besta. Pode, porém, dizer-se que após a sua morte, vil tanto quanto foi a sua vida, o povo romano ficou com tanta pena (por se lembrar dos seus jogos e festins) que pouco faltou para vestir luto. Assim o escreveu Cornélio Tácito, autor dos melhores e mais graves, e só pode estranhar o fato quem não conheça bem o que o povo fez após a morte de Júlio César, que tinha abolido as leis e a liberdade.
Achavam que era um homem sem valor (creio), mas louvaram muito a sua humanidade que afinal foi tão nociva como a crueldade mais selvagem de todos os tiranos.
Em boa verdade, a sua peçonhenta doçura serviu só para adoçar a servidão que impôs ao povo romano.
Mas, depois de morto, o dito povo, que tinha ainda na boca o sabor dos banquetes e a recordação das suas prodigalidades, queimou, para honrá-lo e incinerá-lo, todos os bancos da praça, edificou-lhe uma coluna, como a um verdadeiro pai do povo (assim rezava a inscrição no capitel), e prestou-lhe mais honrarias, após a morte, do que a qualquer outro homem, à exceção talvez dos que o mataram.
Os imperadores romanos não deixavam de tomar sempre o título de tribuno do povo, seja porque seu cargo era tido na conta de santo e sagrado, seja porque havia sido estabelecido para se defenderem do povo e estarem sob o favor do estado.
Deste modo tinham por certo que o povo lhes daria toda a confiança, tendo em maior consideração o título do que os atos deles.
Não procedem melhor hoje em dia os que sempre que cometem aleivosias, incluindo as mais graves, fazem-nas acompanhar de discursos sobre o bem comum e a utilidade pública.
Não ignoras, Longa, os considerandos de que habilmente eles costumam lançar mão. Mas na maioria das vezes não há habilidade que chegue para cobrir tanto despudor.
Os reis assírios, e depois deles os medos, só apareciam em público o mais tarde possível, ao anoitecer, para a populaça julgar que eles tinham algo de sobre-humano, assim iludindo as gentes propensas ao devaneio e amigas de imaginar aquilo que não vêem claramente visto.
Foi assim que as nações que durante longos anos pertenceram ao império sírio se habituaram, com tal mistério, a servir e serviam tanto mais quanto não sabiam quem era o soberano; e todos o respeitavam e temiam, sem nenhum deles o ter visto.
Os primeiros reis do Egito, esses nunca se mostravam em público sem levarem um ramo ou uma luz na cabeça e mascaravam-se como saltimbancos, coisa tão estranha de ver que os súditos se enchiam de respeito e veneração por eles; e havia gente tão doida e tão submissa que se prestava a tal comédia em vez de com ela se rir. Faz pena ouvir comentar as artimanhas a que os tiranos de antigamente recorriam para consolidarem as suas tiranias e o modo como de coisas somenos tiravam grande partido.
Tinham compreendido ser possível fazerem o que quisessem de um povo que se deixava apanhar na rede, por muito frágil que ela fosse, um povo tão fácil de enganar e submeter que quanto mais dele zombavam mais se rebaixava.
E que direi daquela outra patranha a que os povos antigos sempre deram grande crédito? Acreditaram, de fato, que o dedo grande do pé de Pirro, rei dos epirotas, fazia milagres e curava as doenças do baço.
Acreditavam na lenda de que o dito dedo, após a cremação do corpo de Pirro, ficaria inteiro no meio das cinzas.
Era o próprio povo que forjava as mentiras em que posteriormente acreditava. Muitos assim o escreveram e, pelo modo como o fizeram, é patente que se limitaram a reunir o que ouviam dizer nas cidades entre o povo miúdo.
Vespasiano, no regresso da Assíria, passando por Alexandria a caminho de Roma, tomar o governo do Império, teria realizado muitos milagres.
Punha os coxos a andar, dava vista aos cegos e obrava muitas outras façanhas em que só podia acreditar quem fosse mais cego do que aqueles a quem pretensamente curava.
Até os mesmos tiranos se espantavam com a forma como os homens podem suportar um homem que lhes faz mal; utilizavam por isso o disfarce da religião e, se possível, tomavam o aspecto de certas divindades, disso se servindo para protegerem a má vida que levavam.
Se dermos credo à Sibila de Virgílio e à sua descrição do inferno, Salmoneu, por ter zombado dos deuses e vestido a indumentária de Júpiter, está agora no fundo do inferno a receber o castigo que merece:
... As penas vi cruéis e penetrantes
De Salmoneu soberbo, que tanto erra,
De Júpiter Tonante o raio horrendo
E do Olimpo os trovões contrafazendo.
De quatro frisões este conduzido
Uma tocha acendida meneando,
Pelos povos de Grécia ia atrevido,
E pelo meio de Elides triunfando.
O culto aos altos deuses só devido
Pedia: mentecapto, que rodando
Pela ponte no coche miserável,
Fingia a chuva e o raio imitável.
Mas de uma nuvem densa um raio horrendo,
Vibrando irado, o padre onipotente
O derrubou com ímpeto tremendo,
Não com fumoso raio ou tocha ardente...
[Eneida, Virgílio, Cap. VI]
Se este, cujo crime foi fazer de tolo, padece hoje tais tormentos no inferno, é de crer que merecem muito pior os que abusaram da religião para fins ruins.
Os nossos semearam pela França sapos, flores de lis, a ampola e a oriflama. Pela parte que mais me cabe, não ponho em dúvida que os nossos maiores e nós não temos razão de queixa, pois sempre tivemos reis bons em tempo de paz, valorosos na guerra, reis que, embora sendo-o de nascença, parecem ter sido não criados pela natureza, como os outros, mas eleitos por Deus Todo-poderoso, antes de tomarem nas mãos as rédeas do governo e a guarda do reino.
Ainda que assim não fosse, não poria em dúvida a verdade contada pelas nossas histórias, nem as discutiria com vistas a rebaixar a nossa bela nação e deslustrar a nossa poesia francesa, a qual, mais do que remoçada, está hoje completamente renovada graças aos nossos Ronsard, Baïf e Du Bellay, que fizeram evoluir a nossa língua a pontos (ouso esperá-lo) de os gregos e latinos não serem em nada superiores, a não ser quiçá no direito de antiguidade.
E seria da minha parte grande ofensa à nossa métrica (uso de boa mente a palavra e não me desagrada) que, tornada embora por muitos mecânica, tem muita gente capaz de enobrecê-la e de restituí-la à sua honra primitiva, seria, digo, grande ofensa, subtrair-lhe os belos contos do rei Clóvis, nos quais julgo ver despontar fácil e elegantemente a veia do nosso Ronsard e da sua Francíada. Pressinto o seu alcance, reconheço-lhe a graça e finura de espírito. Tem arte para fazer da oriflama o que os romanos fizeram das ancilas, como diz Virgílio: “E os escudos do céu jazendo em terra”. Erguerá a nossa ampola tanto quanto os atenienses o cesto de Eríctono; e as nossas armas serão faladas tanto quanto o foi a oliveira que ainda hoje se encontra na torre de Minerva. Seria de fato ultrajante renegar os nossos livros e desdizer os nossos poetas.
Mas voltando ao assunto de que sem querer me afastei, quem mais do que os tiranos tem conseguido para sua segurança, habituar o povo não só à obediência e à servidão, mas até à devoção? Tudo, pois, o que até aqui disse sobre o hábito de as pessoas serem voluntariamente escravas aplica-se apenas às relações entre os tiranos e a arraia miúda e embrutecida.
Passarei agora a um ponto que, a meu ver, constitui o segredo e a mola da dominação: o apoio e o alicerce da tirania.
Quem pensar que as alabardas dos guardas e das sentinelas protegem o tirano, está, na minha opinião, muito enganado; usam-nos, creio, mais por formalidade e como espantalho do que por lhes merecerem a confiança.
Os arqueiros vedam a entrada no paço aos pouco hábeis, aos que não têm meios, não aos bem armados e aos façanhudos.
Dos imperadores romanos se pode dizer que foram menos os que escaparam de qualquer perigo por intervenção dos arqueiros do que os que pelos próprios guardas foram mortos.
Não são as hordas de soldados a cavalo, não são as companhias de soldados peões, não são as armas que defendem o tirano.
Parece à primeira vista incrível, mas é a verdade. São sempre quatro ou cinco os que estão no segredo do tirano, são esses quatro ou cinco que sujeitam o povo à servidão.
Sempre foi a uma escassa meia dúzia que o tirano deu ouvidos, foram sempre esses os que lograram aproximar-se dele ou ser por ele convocados, para serem cúmplices das suas crueldades, companheiros dos seus prazeres, alcoviteiros suas lascívias e com ele beneficiários das rapinas. Tal é a influência deles sobre o caudilho que o povo tem de sofrer não só a maldade dele como também a deles. Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos que procedem com eles como eles procedem com o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil devidamente ensinados a quem confiam ora o governo das províncias ora a administração do dinheiro, para que eles ocultem as suas avarezas e crueldades, para serem seus executores no momento combinado e praticarem tais malefícios que só à sombra deles podem sobreviver e não cair sob a alçada da lei e da justiça. E abaixo de todos estes vêm outros.
Quem queira perder tempo a desenredar esta complexa meada descobrirá abaixo dos tais seis mil mais cem mil ou cem milhões agarrados à corda do tirano; tal como em Homero Júpiter se gloria de que, puxando a corda, todos os deuses virão atrás.
Tal cadeia está na origem do crescimento do Senado no tempo de Júlio, do estabelecimento de novos cargos e das eleições de ofícios, que não são de modo algum uma reforma na justiça, mas novo apoio à tirania.
E, pelos favores, ganhos e lucros que os tiranos concedem chega-se a isto: são quase tantas pessoas a quem a tirania parece proveitosa como as que prezam a liberdade.
Dizem os médicos que, havendo no nosso corpo uma parte afetada, é nela que naturalmente se reúnem os humores malignos; da mesma forma, quando um rei se declara tirano, tudo quanto é mau, a escória do reino (não me refiro aos larápios e outros desorelhados que no conjunto da república não fazem bem ou mal algum), os que são ambiciosos e avarentos, todos se juntam à volta dele para apoiarem-no, para participarem do saque e serem outros tantos tiranetes logo abaixo do tirano.
É o caso dos grandes ladrões e corsários famosos. Há uns que exploram o país e assaltam os viajantes; estão uns de emboscada e outros à espreita; uns chacinam, outros saqueiam e, havendo muito embora alguns mais proeminentes, uns que são criados e outros chefes de bando, todos afinal se sentem donos, senão do espólio principal, pelo menos de parte dele.
Conta-se que os piratas sicilianos não só se juntaram em tão grande número que foi mister enviar contra eles Pompeu Magno, como também conseguiram estabelecer alianças com algumas belas cidades e grandes praças fortes em cujos portos ancoravam com toda a segurança, no regresso do corso, dando-lhes em recompensa uma parte dos bens que rapinavam.
O tirano submete a uns por intermédio dos outros.
É assim protegido por aqueles que, se algo valessem, antes devia recear, e dá razão ao adágio que diz ser a lenha rachada com cunhas feitas da mesma lenha.
Vejam-se os arqueiros, os guardas e porta-estandartes que do tirano recebem não poucos agravos.
Mas os desgraçados, banidos por Deus e pelos homens, suportam de boa mente o mal e descarregam depois esse mal não naquele que os maltrata, mas nos que são como ele maltratados e não têm defesa.
À vista dos que servilmente giram em redor do tirano, a executar as suas tiranias e a oprimir o povo, fico muitas vezes espantado com a maldade deles e sinto igualmente pena de tanta estupidez.
Porque, em boa verdade, o que fazem eles, ao acercarem-se do tirano, senão afastarem-se da liberdade, darem (por assim dizer) ambas as mãos à servidão e abraçarem a escravatura?
Ponham eles algum freio à ambição, renunciem um pouco à avareza, olhem depois para si próprios, vejam-se bem e perceberão claramente que os camponeses, os servos que eles espezinham e tratam como escravos são em comparação com eles, livres e felizes.
O camponês e o artesão, embora servos, limitam-se a fazer o que lhes mandam e, feito isso, ficam quites.
Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos.
Não basta que lhe obedeçam, têm de lhe fazer todas as vontades, têm de se matar de trabalhar nos negócios dele, de ter os gostos que ele tem, de renunciar à sua própria pessoa e de se despojar do que a natureza lhes deu.
Têm de se acautelar com o que dizem, com as mínimas palavras, os mínimos gestos, com o modo como olham; não têm olhos, nem pés, nem mãos, têm de consagrar tudo ao trabalho de espiar a vontade e descobrir os pensamentos do tirano.
Será isto viver feliz? Será isto vida? Haverá no mundo coisa mais insuportável do que isto? Não me refiro sequer a homens bem nascidos, mas sim a quem tenha o sentido do bem comum ou, para mais não dizer, cara de homem. Haverá condição mais miserável do que viver assim, sem ter nada de seu, sujeitando a outrem a liberdade, o corpo, a vida?
Fazem tudo o que fazem para ganharem fortuna...
Como se pudessem ganhar alguma coisa de seu, quando da sua própria pessoa não podem dizer que seja sua.
Como se fosse possível, na presença do tirano, alguém possuir o que quer que seja, eles fazem tudo para acumularem riquezas e não se lembram de que são eles que lhe dão a força para roubar tudo a todos, não deixando a ninguém nada de seu.
Vêem que é o ter que mais sujeita os homens à crueldade, que não há para o tirano crime mais digno de morte do que a posse de quaisquer bens; que ele só quer possuir riquezas, que rouba aos ricos que se apresentam diante dele como num matadouro, para que ele os veja bem recheados e ornados e deles tenha inveja.
Estes favoritos deveriam lembrar-se menos dos poucos que no convívio com o tirano ganharam fortunas do que dos muitos que, tendo acumulado assim alguns haveres, acabaram por perder os bens e a vida.
Bom será pensar que, se alguns poucos ganharam riquezas, pouquíssimos foram os que as conservaram.
Percorreram-se as histórias antigas, pense-se nas de fresca data e se verá claramente quão grande é o número dos que, ganhando as
boas graças dos príncipes com falsidades e tendo recorrido à maldade ou abusado da simplicidade deles, acabaram por ser aniquilados pelos mesmos príncipes, os quais, tão facilmente quanto os tinham elevado, viram que não podiam conservá-los.
Entre o grande número de pessoas que algum dia viveram nas cortes dos maus reis, poucos ou nenhum escaparam de sentir em si a crueldade do tirano a quem tinham acirrado contra os outros.
Tendo o mais das vezes enriquecido, à custa da proteção deles, com os despojos dos outros, foram eles que depois enriqueceram os outros com seus próprios despojos.
As próprias pessoas de bem, se acaso as há ao redor do tirano e gozam das suas graças, enquanto nelas brilha a virtude e a integridade, que, vistas de perto, até aos maus inspiram respeito, essas pessoas de bem não ficarão muito tempo sem perceber o mal que os outros sofrem e aprenderão às suas custas os malefícios da tirania.
Sêneca, Burro, Trázeas, esse trio de pessoas de bem que tiveram a pouca sorte de viver perto do tirano e a missão de tratar dos seus negócios, foram todos por ele estimados e benquistos; um deles fora seu preceptor e tinha como penhor da amizade e educação que lhe dera; ora todos eles testemunharam pela sua morte cruel quão pouca confiança merecem os tiranos.
Que amizade, afinal, pode esperar-se daquele cujo coração é tão duro que odeia o próprio reino que em tudo lhe obedece? Que, por não conseguir fazer-se amar, se empobrece e destrói seu império?
Poderá dizer-se que todos os que referi, incorreram em grandes desgraças, por terem sido virtuosos; mas olhemos também para o resto do séqüito do tirano e veremos que todos quantos obtiveram os seus favores e os mantiveram por maldade acabaram por não durar muito.
Onde se ouviu falar de amor mais dedicado, de afeto mais duradouro, onde é que já se viu homem mais obstinadamente preso a uma mulher do que ele estava a Pompéia, a quem afinal envenenou?
Agripina, mãe de Nero, matara o marido Cláudio para por o filho no trono. Fez-lhe todas as vontades, não se poupou a trabalhos para lhe agradar. Ora foi esse mesmo filho por ela gerado e feito imperador, foi ele que, depois de muitas vezes, debalde, o tentar, acabou por lhe tirar a vida; e ninguém depois diria que ela não mereceu esse castigo, mas a opinião geral é que devia tê-lo recebido das mãos de outrem e não daquele que lho infligiu.
Onde houve já homem mais fácil de manobrar, mais simples, digamos até mais ingênuo do que o Imperador Cláudio? Quem se apaixonou algum dia por uma mulher mais do que ele por Messalina? Nem por isso deixou de entregá-la ao carrasco. A simplicidade é uma crueldade de todos os tiranos: tanto que todos ignoram o que seja praticar o bem. Mas, não sei como, chega sempre o dia em que usam de crueldade para com os que os rodeiam e a pouca inteligência que possuem desperta de imediato.
É bem conhecida a palavra daquele que, vendo a descoberto o colo da mulher amada, sem a qual parecia não poder viver, a acariciou, dizendo: este belo pescoço, logo que eu o ordene, pode ser cortado.
Por isso é que a maior parte dos antigos tiranos eram geralmente mortos pelos seus favoritos, os quais, uma vez conhecida a natureza da tirania, perdiam toda a fé na vontade do tirano e desconfiavam do seu poder.
Assim foi que Domiciano morreu às mãos de Estevão, Cômodo assassinado por uma das suas amantes, Antonino por Macrino, e o mesmo aconteceu com quase todos os outros.
A verdade é que o tirano nunca é amado nem ama.
A amizade é uma palavra sagrada, é uma coisa santa e só pode existir entre pessoas de bem, só se mantém quando há estima mútua; conserva-se não tanto pelos benefícios quanto por uma vida de bondade.
O que dá ao amigo a certeza de contar com o amigo é o conhecimento que tem da sua integridade, a forma como corresponde à sua amizade, o seu bom feitio, a fé e a constância.
Não cabe amizade onde há crueldade, onde há deslealdade, onde há injustiça. Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apóiam-se uns aos outros, mas temem-se reciprocamente. Não são amigos, são cúmplices.
Ainda que assim não fosse, havia de ser sempre difícil achar num tirano um amor firme. É que, estando ele acima de todos e não tendo companheiros, situa-se para lá de todas as raias da amizade, a qual tem seu alvo na equidade, não aceita a superioridade, antes quer que todos sejam iguais.
Por isso é que entre os ladrões reina a maior confiança, no dividir do que roubaram; todos são pares e companheiros e, se não se amam, temem-se pelo menos uns aos outros e não querem, desunindo-se, tornar-se mais fracos.
Quanto ao tirano, nem os próprios favoritos podem ter confiança nele, pois aprenderam por si que ele pode tudo, que não há direitos nem deveres a que esteja obrigado, a sua única lei é a sua vontade, não é companheiro de ninguém, antes é senhor de todos. Quão dignos de piedade, portanto, são aqueles que, perante exemplos tão evidentes, face a um perigo tão iminente, não aprendem com o que outros já sofreram!
Como pode haver tanta gente que gosta de conviver com os tiranos e que nem um só tenha inteligência e ousadia que bastem para lhes dizer o que (no dizer do conto) a raposa respondeu ao leão que se fingia doente: “De boa mente entraria no teu covil; mas só vejo pegadas de bichos que entram e nenhuma dos que dele tenham saído”.
Esses desgraçados só vêem o brilho dos tesouros do tirano e ficam olhando espantados para o fulgor das suas suntuosidades, deslumbrados com tanto esplendor; aproximam-se e não vêem que estão a atirar-se para o meio de uma fogueira que não tardará a consumi-los. O Sátiro indiscreto (reza a fábula), ao ver aceso o lume descoberto por Prometeu, achou-o tão belo que foi beijá-lo e se queimou.
A borboleta que, esperando encontrar algum prazer, se atira ao fogo, vendo-o luzir, acaba por ser vítima de uma outra qualidade que o fogo tem: a de tudo queimar (diz o poeta lucano).
Vamos admitir que os favoritos consigam escapar às mãos daqueles a quem servem. Não escaparão do rei que vier depois. Se for bom, tudo fará para pedir contas e repor a justiça. Se for mau e semelhante ao que eles serviram, há de ter os seus favoritos que, evidentemente, além de pretenderem ocupar o lugar dos outros, hão de querer também os bens e as vidas deles.
Assim sendo, como pode haver alguém que, no meio de tantos perigos, de tanta insegurança, queira ocupar tão desgraçada posição e servir com tal risco tão perigoso amo?
Que tormento, que martírio este, Deus meu: viver dia e noite a pensar em ser agradável a alguém e, ao mesmo tempo, temê-lo mais do que a qualquer homem!
Que tormento estar sempre de olho à espreita, de ouvido a escuta, a espiar de onde virá o golpe, para descobrir embustes, examinando sempre as feições dos companheiros, a ver se descobre quem o trai, rindo-se para todos, receando-os a todos, não tendo inimigo declarado nem amigo certo!
Que tormento fazer sempre rosto risonho, tendo o coração transido, não poder mostrar-se contente e não se atrever a ser triste!
Aprazível é considerar o que eles ganham com tanto tormento, o que podem esperar dos trabalhos que passam e da mísera vida que levam.
O povo gosta de acusar dos males que sofre não o tirano, mas os que o aconselham: os povos, as nações, toda a gente, incluindo os camponeses e os lavradores, todos sabem os nomes deles e os respectivos vícios; sobre eles lançam mil ultrajes, mil vilanias, mil maldições. Todas as suas orações e votos são contra eles. Todas as desgraças, todas as pestes, todas as fomes lhes são atribuídas e, se às vezes, exteriormente, lhes tributam algum respeito, não deixam de amaldiçoá-lo no mais fundo do coração, têm por eles um horror maior do que têm aos animais ferozes.
Tal é a honra, tal é a glória que recebem em paga dos serviços que prestam aos povos, os quais nunca se darão por saciados e compensados do que sofreram, ainda que por eles repartissem o corpo em pedaços.
Mesmo depois de morrerem, os que ficam tudo farão para que o nome de Come-Gente lhes seja atribuído e manchado pela tinta de mil penas, e a sua reputação desfeita em milhares de livros, e os próprios ossos, a bem dizer, pisados pelos vindouros que assim castigam depois de mortos os que tiveram vida ruim.
Aprendamos com estes exemplos, aprendamos a fazer o bem.
Ergamos os olhos para o Céu, seja por amor da nossa honra, seja pelo amor da própria virtude, olhemos para Deus Todo-poderoso, testemunha certa de nossos atos e justo juiz de nossas faltas.
De minha parte, penso, e não me engano, que nada há de mais contrário a um Deus liberal e bondoso, do que a tirania e que ele reserva aos tiranos e seus cúmplices um castigo especial.